O Cerebro é fascinante
Neurocientista teve derrame e ajudou o próprio seu cerebro a recuperar
Em 9 de dezembro de 1996, a neuroanatomista norte-americana Jill Bolte Taylor tinha 37 anos e foi para a cama com uma preocupacao: como abastecer o banco de cerebros da Universidade Harvard, onde trabalhava, com orgaos recem-retirados de vitimas de doencas mentais. Na manha seguinte, seu mundo racional comecou a se desintegrar.
Um coagulo no hemisferio esquerdo (ligado a razao) do seu cerebro provocou um derrame. Assim, ela teve de contar apenas com o hemisferio direito (associado ao pensamento simbolico e a criatividade) em um processo de recuperacao que partiu da estaca zero. Quando a mae da cientista – uma ex-professora de matematica – tentou ensinar o que era 1 + 1, ouviu como resposta: “O que e 1?”.
Passados 12 anos, uma cirurgia arriscadissima e muita terapia, Jill voltou a dar aulas – na Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana – e diz que ja recuperou todos os seus arquivos de memoria. Essa experiencia rendeu o recem-lancado livro “A Cientista que Curou Seu Proprio Cerebro” (Ediouro) e a escolha pela revista “Time” como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2008. Leia a conversa da doutora com a revista Galileu.
Pergunta - Passados 12 anos desde o derrame, voce acredita que ja tenha reaberto todos os seus arquivos mentais? Ou, por exemplo, quando voce encontra velhos amigos, eles sempre lembram de coisas que voce, em tese, deveria ter na memoria sem a ajuda deles?
Jill Taylor – Passei oito anos em recuperacao. Sempre fui muito intuitiva e nao me apegava a toneladas de detalhes. Assim, ha muitas coisas que eu nao codifiquei ou tentei me lembrar. Exemplo disso e o meu bolo de aniversario quando eu completei dez anos. Hoje eu sei como ele era – porque alguem me disse -, mas, antes do derrame, eu nao seria capaz de descreve-lo. Tenho a consciencia de que sei coisas sobre o meu passado que ninguem me contou depois do derrame. Assim, acredito que eu tenho a maioria das minhas memorias de volta.
Pergunta - Mesmo sem experiencia medica, sua mae foi muito eficiente em te ajudar. Foi instinto? Experiencia em ensinar?
Taylor - Acho que a experiencia e os dons naturais dela, tanto como mae como boa professora, a prepararam para enfrentar essa situacao. Ela prestava muita atencao as minhas necessidades e me ajudava a encontrar minhas proprias solucoes para os problemas. Nos falavamos muito sobre o cerebro, assim ela sabia de todos os meus temores. E nos duas concordavamos que nada nem ninguem sabia mais sobre o tratamento mais conveniente do que o meu proprio cerebro. Assim, se ficava cansado, deixavamos que ele dormisse.
Pergunta - A sua experiencia pessoal mudou o modo como voce ve e sente os papeis desempenhados pelos dois hemisferios do cerebro?
Taylor - Completamente. Antes do derrame, eu tinha uma visao geral do papel de cada hemisferio, mas eu nao tinha a menor ideia de como dizer qual parte do meu cerebro estava contribuindo com qual informacao para formar a minha percepcao da realidade.
Pergunta - O que voce mudaria na maneira como os derrames sao tratados?
Taylor - Eu deixaria as pessoas dormirem quando se sentissem cansadas e iria trata-las com compaixao quando estivessem acordadas. Assumiria que o cerebro e capaz de se recuperar e o trataria com respeito. Em vez de me referir aos pacientes como “vitimas”, passaria a chama-los de “sobreviventes”! Falaria que as pessoas “tiveram” um derrame em vez de “sofreram”.
Pergunta - No livro, voce escreveu que tem uma paixao por dissecar corpos. Quando essa paixao começou?
Taylor - Quando eu era uma garotinha de cerca de 8 anos, minha mae me levou ao Museu de Ciencia de Chicago. Havia uma exposicao com pequenos fetos e embrioes dentro de vidros. As idades variavam de poucas semanas ate nove meses. Eu fiquei absolutamente fascinada pela exposicao, e esse foi o real comeco do meu interesse em dissecacao.
Pergunta - Depois de reconstituir seu hemisferio esquerdo, em que voce se assemelha e difere da Jill pre-derrame?
Taylor - Eu continuo tao esperta quanto antes, alem de ter as mesmas capacidades cognitivas e intelectuais. Mas agora eu decidi gastar meu tempo fazendo coisas que vao ajudar outras pessoas, em vez de focar toda a minha energia na carreira. Estou mais interessada em ajudar a humanidade, e antes meu principal objetivo era escalar os degraus do mundo academico.
Pergunta - O fato de ter utilizado com mais frequencia o seu hemisferio direito alterou o seu pensamento? Voce se lembra de como ele era antes do derrame?
Taylor - Agora ele esta excepcional porque eu dediquei um tempo trabalhando essa parte do meu cerebro. Imediatamente depois do derrame, a sensacao de que eu estava criativa era ainda mais clara e excitante. E essa sensacao acabou se traduzindo na minha arte com vitrais.
Pergunta - Por falar em arte, alem de confeccionar vitrais, voce toca violao. Foi especialmente complicado recuperar esses seus talentos?
Taylor - Foi bem mais facil que os calculos matematicos, mesmo aqueles mais elementares. Isso porque os talentos artisticos estao associados ao hemisferio direito do cerebro. Com a ausencia temporaria do meu hemisferio esquerdo, esses talentos ate melhoraram.
Pergunta - Se a Jill do passado escrevesse um livro sobre uma experiencia pessoal, seria muito diferente desse?
Taylor - Acho que seria um livro sobre algo bem aventureiro, como saltar de um aviao. Outra ideia seria uma obra didatica sobre o cerebro.
fonte: ser-saudavel
Um Comentario to “O Cerebro é fascinante”
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Manuela comentou dia 05 Jul 2009 as 9:46 am #
Parabéns pelo blog!