[Entrevista] Marcelo Pustiglione
Marcelo Pustiglione é médico, Livre-Docente em Clínica Homeopática pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro (UNIRIO), pós-graduado em Homeopatia (Instituto Hahnemanniano do Brasil), Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO),Administração Hospitalar (Faculdade São Camilo) e Administração de Sistemas de Saúde (Fundação Getúlio Vargas).
É Regente da Disciplina de “Estudos Avançados do Organon da Arte de Curar” do Curso de Homeopatia da Universidade Moderna de Lisboa. Autor de livros e de artigos científicos, e Professor Convidado da Disciplina de Medicina do Trabalho da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo nos cursos de graduação e pós-graduação.
É Diretor de Serviço de Saúde do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo desde 1982.
1- Como vem observando a evolução da pesquisa em homeopatia nos últimos anos?
Quem, como eu, viveu estas últimas três décadas da trajectória da Homeopatia no Brasil não pode deixar de considerar que houve uma evidente evolução com relação à preocupação dos homeopatas em demonstrar resultados e publicar trabalhos científicos. Já há alguns anos podemos encontrar alguns artigos publicados em revistas de impacto e muitos outros nos sítios especializados da rede mundial. Isso há 10 anos atrás representava o desejável quase utópico. Entretanto, essa evolução, digamos, quantitativa não foi acompanhada ou ainda não está sendo correspondida, por uma evolução qualitativa. Os pesquisadores homeopatas necessitam preocupar-se mais com os aspectos metodológicos. O argumento que a Homeopatia não se adapta aos modelos hegemónicos, está desgastado. Tanto se o considerarmos falso, pois tivemos já muito tempo para testá-lo. Tanto se o considerarmos verdadeiro, pois também tivemos tempo para propor um mais adequado. Porém, entendo também que esta dificuldade está associada à não inclusão efectiva da Homeopatia na Universidade. Desta maneira, acredito que a evolução desejada só ocorrerá efectivamente quando a Homeopatia fizer parte da grade curricular principalmente das escolas médicas.
2- Como se deu, e por que, o seu envolvimento com o SINAPIH?
Entrei na Homeopatia em 1980, vindo de uma formação académica exigente com relação à demonstração de resultados. Além disso, já exercia a profissão no Hospital das Clínicas, que, como todos sabem, está vinculado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Portanto, avaliar resultados e comprovar eficácia sempre fizeram parte de meu universo de preocupação profissional. Já nos primeiros anos após a especialização me esforcei em criar condições para o desenvolvimento de protocolos de pesquisa. Passei a fazer isso, a partir de 1983 na Unidade de Homeopatia do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo. Já no primeiro ano de actividade levamos trabalhos para o Congresso Médico realizado pelo próprio hospital. Em 1984, difundimos a ideia da pesquisa clínica no Congresso Brasileiro de Homeopatia realizado em Salvador. Em 1986, tínhamos trabalhos clínicos inscritos no Congresso Brasileiro de Homeopatia. No dia 18 de Novembro de 1987, realizou-se na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo a primeira troca de experiências entre homeopatas paulistas que, militando na rede pública, utilizavam, oficial ou oficiosamente, a terapêutica homeopática. Denominado “Encontro Interinstitucional de Homeopatia”, contou com a participação de representantes das instituições que já tinham tradição e experiência no sector, como o Centro de Saúde Experimental da Barra Funda (actuando desde 1981) e a Unidade de Homeopatia do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo Paralelamente e com os mesmo objectivos, realizava-se na cidade do Rio de Janeiro o “Encontro Nacional de Médicos Homeopatas do INAMPS”. A partir dessa preocupação de inclusão da Homeopatia nas acções oficiais de saúde e pelo esforço de um grupo selecto de homeopatas, nos dias 9 e 10 de Dezembro de 1987, realizou-se na Fundação Instituto Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), na cidade do Rio de Janeiro evento denominado “Encontro de Pesquisas Institucionais em Homeopatia”. Estive lá, expondo minha experiência. Dessas iniciativas nasceu o SINAPIH e eu tive a felicidade de fazer parte do grupo criador, desde a filosofia, estrutura, objectivos e o nome!
3- Qual a importância e a contribuição do SINAPIH para o desenvolvimento da homeopatia?
Considero o SINAPIH como um importante divisor de águas. Após o primeiro evento, os homeopatas preocupados com o desenvolvimento da especialidade passaram a ter um foro adequado e competente para ouvir a experiência de outros e expor suas próprias experiências, discutir, aprender e elucidar dúvidas. Isso, num ambiente comprometido apenas com os aspectos tecnológicos e científicos do Saber Homeopático. É importante salientar que a importância do SINAPIH é reconhecida internacionalmente. Na realidade foi o primeiro evento homeopático no mundo dedicado à pesquisa. Depois vieram outros e esse é mais um indicador de sua importância.
4- Qual é a sua expectativa futura em relação ao desenvolvimento da pesquisa em homeopatia?
Acho que estamos num momento de crise. Tudo o que a iniciativa pessoal de vários homeopatas pode fazer, está sendo feita ou já foi feita. O diferencial agora é a entrada na Homeopatia na Universidade. Se isso ocorrer, a pesquisa homeopática desmancha. Caso contrário corre risco de retroceder, na medida em que as pessoas começam a se cansar de remar contra a maré. Precisamos definir o que é necessário fazer para que a Homeopatia entre nos muros da academia. Atitudes sectárias, afrontamentos e coisas do tipo já foram usadas, não se mostraram eficazes e estão fora de moda. Os homeopatas devem levar a Homeopatia para a Universidade através de seu preparo e competência. A questão hoje não é o que a Homeopatia pode fazer para os homeopatas, mas sim o que os homeopatas podem e devem fazer a Homeopatia.
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